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VARIAÇÃO SOBRE ROSAS
Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse
sempre aberta para quem quiser entrar.
Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios.
Roubo aos teus lábios as suas pétalas.
E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.
Nuno Júdice
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A João Lúcio
A invasão das casas pela luz
Ocorre nas manhãs de Primavera
Entre os reflexos de verde matizado
E o cheiro a resina do pinhal.
Nunca construiremos
A moradia perfeita
O lugar de encontro dos pontos cardeais
Nunca encontraremos a dimensão exacta
Das ilhas, do lodo, dos canais
O palácio com estátuas de alabastro
E escadas de serpente
O Algarve impressionista
O céu, a cor e o poente.
António José Ventura
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QUASE NADA
O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.
Eugénio de Andrade
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No corredor da Faculdade
de Ciências, espero pelo abrir
da porta. O lugar traz à memória
contos de Júlio Verne: o observatório
as estantes de vidro, as madeiras, os impressos
no placard verde escuro, o silêncio
entrecortado pelos passos no corredor
(biblioteca dos hexágonos de Borges)
- é biblioteca o que está escrito
na tabuleta à minha frente.
Em breve estarei entre as estantes
(a biblioteca não é escura)
sinto o cheiro das tintas e do papel.
Chega o funcionário e abre
a biblioteca.
António José Ventura,
A
Cidade das Palavras, 1994
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