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Manhã
Na manhã recta e branca do terraço
Em vão busquei meu pranto e minha sombra
O perfume do orégão habita rente ao muro
Conivente da seda e da serpente
No meio-dia da praia o sol dá-me
Pupilas de água mãos de areia pura
A luz me liga ao mar como a meu rosto
Nem a linha das águas me divide
Mergulho até meu coração de gruta
Rouco de silêncio e roxa treva
O promontório sagra a claridade
A luz deserta e limpa me reúne
Sophia de Mello Breyner Andresen
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ROSA
Nos silenciosos vales do norte
nascem as inesperadas rosas do amor,
com as suas pétalas mágicas,
e às vezes,
ternos espinhos no coração de um homem,
na sua eterna solidão.
São rosas do sol e das chuvas,
iluminando a noite desse homem,
a sua respiração,
as suas mãos que estremecem à volta da
flor.
E elas vão e vêm, caladas,
repartindo a ternura e a cor,
a oculta ternura,
a discreta cor no coração do homem,
na sua eterna solidão.
José Agostinho Baptista
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TARDE NO MAR
A tarde é de oiro rútilo: esbraseia
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,
Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!
Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretem a desfolhar...
E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...
Florbela Espanca
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ESCRITA DO POEMA
A mão traça no branco das parede
A negrura das letras
Há um silêncio grave
A mesa brilha docemente o seu polido
De certa forma
Fico alheia
Sophia de Mello Breyner Andresen
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