O Grande Acelerador de Partículas II Versão para impressão

A Importância Científica

            cern.jpg Situado na sede do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN, na sigla francesa), por baixo dos prados alpinos da fronteira franco-suiça, perto de Genebra, é constituído por um túnel circular de 27 Km de comprimento, capaz de acelerar partículas sub-atómicas até uma velocidade próxima da da luz para as fazer colidir. Após o que, quatro enormes detectores (do tamanho de um edifício de quatro andares), irão funcionar como microscópios para identificarem as partículas na fracção de segundo que medeia entre o seu aparecimento e o novo desaparecimento. Envolvendo mais de 10 mil cientistas de várias nações, tem como um dos principais objectivos o estudo da chamada “energia escura”, que constitui a maior parte do universo e sobre a qual pouco se sabe. Através de um conjunto de experiências os cientistas esperam recriar os instantes que se seguiram ao Big Bang e, entre outros mistérios, conseguir a prova de existência do bosão de Higgs.


O bosão de Higgs
              
            Sabemos que a matéria é feita de moléculas e que estas são constituídas por átomos . Por sua vez, estes estão organizados como uma nuvem de electrões que rodeia um núcleo (cerca de cem vezes menor do que a nuvem) que consiste num conglomerado de neutrões e protões. Sabe-se porque razão o átomo é como é, mas ainda não se consegue perceber porque é que as partículas elementares têm a massa que têm e porque apresentam enormes diferenças entre si – por exemplo, a mais pesada, o quark Top, tem uma massa cerca de 350 mil vezes maior do que o electrão. 

           peterˍhiggs.jpg  Em 1964, o físico britânico Peter  Higgs sugeriu uma solução para estas discrepâncias: todo o universo está ocupado por um campo semelhante ao electromagnético e quando as partículas interagem com ele adquirem massa. A ideia é de tal modo revolucionária que colide com o pressuposto comummente aceite de que a massa seja uma propriedade intrínseca da matéria. Ou seja, segundo Higgs os corpos não “têm” massa, adquirem massa. Mas como explicar este facto? Higgs utiliza uma analogia : imaginemos uma sala cheia de gente e que subitamente entra uma pessoa muito famosa. Os que estão junto da porta agrupam-se em seu redor. À medida que avança pela sala, mais pessoas agrupam-se em seu redor e deste modo a pessoa famosa tem dificuldade em deslocar-se. Por outras palavras, as partículas que se movimentam através deste campo adquirem massa, o que aumenta a sua resistência ao movimento.

             Ora, para provar a existência deste campo de forças é preciso encontrar a sua partícula portadora, o chamado bosão de Higgs, pois que todas as forças que conhecemos na natureza  têm associadas a si uma partícula responsável: no caso da força gravitacional é o gravitão, para a electromagnética é o fotão, na força nuclear forte (que mantém o núcleo unido) é o gluão (do inglês “glue”, cola) e a força nuclear fraca (responsável pela desintegração radioactiva beta), possui três partículas portadoras, os bosões W+, W- e Z0 .



 

O LHC não se esgota no bosão de Higgs

           Mas, e se não existir a partícula de Higgs? E se a explicação for outra? Se for este o caso, a consequência mais directa é cair a teoria das partículas elementares por terra, assim como a nossa visão acerca da constituição da matéria e os modelos padrão que a sustentam. Todavia, não seria a primeira vez que tal aconteceria na história do conhecimento humano, nem de certo a última. Acontece é que se, efectivamente, a explicação for outra o LHC estará também em condições de a encontrar. Pode-se, talvez, descobrir simetrias na natureza que ainda não foram reveladas ou dimensões suplementares do espaço-tempo, como previsto nalguns modelos que propõem explicações plausíveis das inconsistências nas teorias actuais. Por exemplo, o estudo da rotação das galáxias revelou que a maior parte da massa no universo não é constituída por aquilo que normalmente observamos no nosso planeta (átomos, núcleos), mas daquilo a que actualmente se chama “matéria escura”, embora não se saiba bem o que isso seja. Também para justificar a aceleração na expansão do universo introduziu-se, mais recentemente, o termo “energia escura”, fonte de uma espécie de anti-gravidade que repelirá as galáxias umas das outras. Sabemos que em conjunto, matéria e energia escura, representam 96% do universo, mas ignoramos o que sejam em concreto. O LHC vai certamente ajudar a compreender alguns destes mistérios que tocam em noções estruturantes, não apenas da Física, mas da forma como concebemos a realidade em geral, como sejam a natureza da matéria e do próprio espaço-tempo.
 

Sites a Consultar

Site Público do CERN

A Aventura das Partículas (site brasileiro muito didáctico).

A Formação das Galáxias

Fontes:
Revista Super Interessante, n.º 122 (Junho 2008);
Jornal de Letras, Out/2008;
Courrier Internacional, n.º 148 (Junho 2008).